O futuro das cidades em debate: Seminário e Congresso de Urbanismo reúnem especialistas em Jaraguá do Sul
O Centro Empresarial de Jaraguá do Sul (CEJAS) tornou-se o ponto de debates sobre o futuro do espaço urbano durante o 2º Seminário de Urbanismo de Jaraguá do Sul e Congresso Profissional.
Os eventos simultâneos reuniram nesta segunda-feira, dia 10, arquitetos, engenheiros, gestores públicos e acadêmicos para mapear os principais desafios e oportunidades das cidades catarinenses diante do crescimento populacional e das transformações climáticas.
A programação destacou painéis voltados à transformação digital dos espaços públicos, mobilidade sustentável e planejamento preventivo contra desastres naturais.
Desenvolvimento econômico e urbanismo de mãos dadas
O presidente da Associação Empresarial de Jaraguá do Sul (ACIJS), Francisco Tavares Junior, ressaltou a relevância do debate sobre o desenvolvimento sustentável e o papel ativo do setor produtivo nas transformações urbanas.
“Quando falamos em desenvolvimento econômico, normalmente pensamos em empresas, empregos, renda e investimentos. Mas existe algo que vem antes disso tudo: a cidade onde as pessoas escolhem viver e onde as empresas escolhem investir”, destacou.
O empresário reforçou que urbanismo e economia precisam caminhar juntos:
“Uma cidade que cresce sem planejamento perde mobilidade, qualidade de vida e competitividade. Por outro lado, uma cidade bem planejada, conectada, sustentável e resiliente atrai talentos, estimula investimentos e cria condições para que as empresas prosperem. Nosso desafio é garantir que o crescimento econômico de hoje ajude a construir a qualidade de vida do amanhã. Porque uma cidade verdadeiramente inteligente não é aquela que simplesmente cresce, mas a que sabe como crescer.”
>>> Eventos simultâneos reuniram arquitetos, engenheiros, gestores públicos e acadêmicos no CEJAS para debater o futuro do desenvolvimento urbano, sustentabilidade e inovação







[Fotos: Ronaldo Corrêa]
Principais destaques nas abordagens dos palestrantes
Marcel Virmond Vieira, secretário de Pesquisa e Planejamento Urbano de Joinville apresentou as estratégias que vêm redefinindo o desenvolvimento da maior cidade de Santa Catarina.
O foco da gestão, salientou, migrou do planejamento estático para a tomada de decisões em tempo real, baseada em dados, flexibilidade legislativa e atração de investimentos privados.
Segundo ele, projeções revelam que o Norte catarinense continuará sendo um polo de atração migratória, com estimativa de que Joinville cresça 50% até 2060, podendo atingir 1 milhão de habitantes. Para gerenciar essa expansão, a administração pública substituiu os planos diretores rígidos por um modelo de gestão territorial contínua, adaptando a infraestrutura existente às novas demandas.
Rafael Rocha Correa, especialista e estrategista em Inteligência Artificial aplicada ao planejamento urbano,abordou que a tecnologia pode reduzir drasticamente o custo e o tempo da execução operacional.
Contudo, explica, essa facilidade não elimina o risco de “alucinações” — respostas estatisticamente plausíveis, mas tecnicamente incorretas.
Para ele, à medida que a IA assume minutas, cálculos preliminares e simulações, o valor do profissional passa a residir no discernimento crítico, repertório técnico e governança. O futuro das cidades pertence, conclui, aos profissionais experientes que utilizam a IA para embasar decisões com maior precisão e responsabilidade legal.
O urbanista e empresário Charles Coelho destacou diretrizes fundamentais sobre o papel da vegetação urbana no enfrentamento dos eventos climáticos extremos. A palestra destacou a urgência de remodelar o planejamento das cidades brasileiras por meio da integração entre engenharia tradicional e Soluções Baseadas na Natureza (SbN).
O crescimento desordenado e a impermeabilização do solo exigem uma revisão da lógica urbana para maior conforto térmico e resiliência climática. A introdução de SbN — como arborização urbana, jardins de chuva e biovaletas — não busca, segundo ele, substituir a engenharia civil tradicional, mas atuar de forma complementar. O investimento em infraestrutura verde resiliente exige uma abordagem multidisciplinar que envolva arquitetos, engenheiros, biólogos e gestores públicos. A pergunta central para as administrações não deve ser o custo de implementação, mas o custo financeiro e social de continuar projetando cidades sem adaptação às mudanças climáticas.
Pós-doutoranda em Arquitetura e Urbanismo pela UFSC, Stella Hiroki alertou que o conceito de Smart City — ou Cidade Inteligente — tem sido recorrentemente reduzido a slogans publicitários, iniciativas de fachada para rankings municipais e projetos utópicos que pouco dialogam com a realidade social.
A pesquisadora apontou que a verdadeira inteligência de um município não se mede pela quantidade de câmeras instaladas, painéis eletrônicos ou tecnologias isoladas. O diferencial, segundo ela, reside na capacidade de integrar dados, gestão pública eficiente e participação cidadã ativa, assegurando que as transformações urbanas ocorram de forma equilibrada e sem impactos negativos colaterais em diferentes regiões da cidade.
As análises apresentadas pela urbanista refletem sua extensa trajetória acadêmica e internacional, que reúne experiências em centros de referência global, como o Senseable City Lab (MIT), o Programmable City Lab (Irlanda) e iniciativas inovadoras em Cingapura.
Setlla Hiroki defende que a tecnologia só cumpre seu papel quando se torna uma ferramenta acessível para a construção de cidades verdadeiramente funcionais, inclusivas e humanas.
O urbanista Carlos Leite defendeu a transição do modelo focado em automóveis para cidades mais humanas, caminháveis e multifuncionais. Segundo ele, o modelo urbano herdado do século XX — pautado na dependência do automóvel, no espraiamento das cidades e na separação estanque entre áreas residenciais, comerciais e de trabalho — está obsoleto.
Para ele, o desafio para a construção de cidades sustentáveis, saudáveis e inclusivas no século XXI, o urbanismo precisa focar nas pessoas, na mobilidade ativa e na criação de centralidades locais.
Na palestra, o especialista mostrou diretrizes para transformar a relação entre os cidadãos e o espaço urbano, tomando como base exemplos globais e a realidade dos municípios brasileiros.
Eventos integrados ampliaram dimensão de discussões
O 2º Seminário de Urbanismo de Jaraguá do Sul e Congresso Profissional foram uma realização conjunta da Associação Empresarial de Jaraguá do Sul (ACIJS), Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) e Associação de Engenheiros e Arquitetos de Jaraguá do Sul (AEAJS), com patrocínio do CREA-SC, Mútua-SC e Lili Casa & Construção.
A agenda esteve integrada à programação da 2ª Bienal Internacional do Livro, amplificando os debates junto de vários setores da sociedade civil e poder púbico, A Bienal do Livro é uma iniciativa da Design Cultural, com respaldo do Programa de Incentivo à Cultura (PIC), da Fundação Catarinense de Cultura e do Governo do Estado de Santa Catarina. O evento contou com o apoio da ACIJS e SESC, além do patrocínio de Agricopel, Grupo Menegotti, Bell’Arte, Dalila Têxtil, Live!, Malwee, Trapp, Grupo Kyly, Raumak, Buschle & Lepper e Choco Leite.
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