Na Bienal do Livro de Jaraguá do Sul, André Carvalhal alerta para o “piloto automático” do mundo digital
Entre telas, notificações incessantes e a busca contínua por validação virtual, até que ponto mantemos o controle de nossas próprias escolhas?
Foi para refletir sobre essa dependência digital que o escritor e analista de comportamento André Carvalhal marcou presença na Bienal Internacional do Livro de Jaraguá do Sul abordando o tema “A arte da subtração”.
No encontro realizado nesta terça-feira, dia 11, o autor compartilhou os bastidores e as provocações centrais de sua obra, “A Alegria de Ficar de Fora”, onde propõe uma pausa na correria tecnológica.
Com uma abordagem que une experiência pessoal e análise social, Carvalhal alerta que a intenção da obra não é pregar o abandono radical das redes sociais, mas sim desacelerar e desligar o “piloto automático” em que a sociedade se acostumou a viver.

>>> Na conversa com o público, medida pelo designer Beto Shibata, Carvalhal reforçou que a intenção da obra não é pregar o abandono radical das redes sociais, mas sim desacelerar e desligar o “piloto automático” em que a sociedade se acostumou a viver
[Fotos: Ronaldo Corrêa]
O estopim: do vício em métricas ao estalo de consciência
Na conversa com o público, mediada pelo designer e diretor criativo Beto Shibata, Carvalhal contou que a gestação do livro passou por duas fases. A primeira delas, totalmente pessoal, nasceu no auge da pandemia de Covid-19. Ao ver projetos presenciais e lançamentos cancelados, Carvalhal passou a se dedicar intensamente à criação de conteúdo online. A rápida ascensão e a viralização de suas postagens vieram acompanhadas de um efeito colateral comum a milhões de usuários: a dependência e o vício em métricas.
“Apareceu o medo de ser cancelado. Acordava de madrugada para checar seguidores e curtidas. Comecei a me comparar com as pessoas — minha casa, meu corpo, minha rotina — e passei a sofrer as consequências de viver em um mundo liderado por algoritmos”, revelou o autor.
O ponto de virada veio ao constatar que essa angústia não era uma falha individual. Inspirado por produções como o documentário O Dilema das Redes, o escritor compreendeu que as plataformas digitais são intencionalmente projetadas para viciar, retendo a atenção do usuário para transformar a subjetividade humana em lucro. Essa percepção deu origem à segunda motivação do livro: responder a uma necessidade que se tornou coletiva.
A ilusão do pertencimento e a “epidemia da solidão”
Um dos temas mais marcantes do encontro foi o impacto da vida digital nas relações humanas. Segundo Carvalhal, a necessidade de aceitação e pertencimento é inerente ao ser humano, mas o ambiente virtual elevou esse anseio a uma escala desproporcional.
Para o escritor, colecionar centenas de milhares de seguidores gera uma falsa sensação de acolhimento. Contudo, essa bolha costuma se desfazer diante da ausência de apoio na vida real.
Paralelamente ao isolamento social, o avanço da Inteligência Artificial e a falsa promessa de que a tecnologia nos traria mais tempo livre também entram em xeque. O autor destaca que, em vez de folga, o uso excessivo dessas ferramentas frequentemente atrofia a capacidade humana de criar, planejar e interagir com o outro.
“Hoje, ter um amigo de verdade, ter tempo livre e conseguir ficar offline tornaram-se os novos luxos”, afirmou Carvalhal, alertando para a emergente “epidemia da solidão”.
Desconexão como ato de resistência
Como especialista em análise de comportamento, Carvalhal pontua que a dinâmica humana atua em polaridades. Após anos de imersão desenfreada no ecossistema digital, surge naturalmente um movimento pendular em direção ao consumo mais consciente e à busca pelo ambiente offline.
Contudo, o autor faz uma ressalva importante: desacelerar não deve ser tratado como mero modismo ou privilégio de classe. Ele aponta duas decisões: na dimensão individual, envolve estabelecer limites no cotidiano, resgatar a capacidade de lidar com o imprevisto e desarmar impulsos automáticos (como pegar o celular a cada momento de pausa); na dimensão coletiva, trata-se de uma pauta política e social urgente, que abrange discussões sobre a regulamentação de plataformas, responsabilização de big techs e proteção do bem-estar coletivo.
Ao final do encontro, o público foi convidado a utilizar o autoconhecimento como ferramenta para recuperar a autonomia. Diante de algoritmos que decidem o que devemos ouvir, assistir e consumir, para o autor “ficar de fora” é uma espécie de declaração de liberdade para se reconectar com o que é verdadeiramente genuíno.
Programação do evento propõe reflexão sobre a relação literatura e sociedade
Integrante do calendário de comemorações dos 150 anos do município, a Bienal Internacional de Literatura tem como tema central “Literatura e Sociedade”.
Inspirado na obra do crítico literário Antonio Candido, o evento nesta edição busca discutir a literatura como motor de transformação social, reunindo escritores nacionais e internacionais, palestras, debates, sessões de autógrafos, contação de histórias e espetáculos teatrais.
A 2ª Bienal Internacional de Literatura é uma realização da Design Cultural, com respaldo do Programa de Incentivo à Cultura (PIC), da Fundação Catarinense de Cultura e do Governo do Estado de Santa Catarina.
O evento tem o apoio da ACIJS e SESC, além do patrocínio Agricopel, Grupo Menegotti, Bell’Arte, Dalila Têxtil, Live!, Malwee, Trapp, Grupo Kyly, Raumak, Buschle & Lepper e Choco Leite.
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