Inovação disruptiva não é um meteoro, diz Arthur Igreja

O avanço da tecnologia não vai destruir o planeta, ao menos com efeitos como o da chuva de meteoros como a que devastou os dinossauros da face da Terra.

Processos que se utilizem da chamada inovação disruptiva, baseados na transformação digital, exigem cada vez mais que empresários assumam a condição de camaleões, ou seja, se adaptem às exigências do novo mercado, porque os negócios sofrem impactos com mudanças que ocorrem de maneira drástica.

O foco não deve ser na tecnologia ou no que as máquinas podem fazer em substituição ao que o ser humano faz, mas sim na atitude que as pessoas devem ter na relação com os consumidores na indústria, no varejo ou na área de serviços.

O recado foi deixado a empresários de Jaraguá do Sul por Arthur Igreja, co-fundador da plataforma de inovação AAA (ao lado de Ricardo Amorim e Allan Costa), durante palestra no sábado (22) na comemoração dos 80 anos da ACIJS.

O que disse Arthur Igreja:

Nova dinâmica do mercado

Três fatores estão diretamente relacionados com o novo viés tecnológico que influencia a sociedade: aumento da expectativa de vida, formação profissional e durabilidade dos produtos. Há um século, a expectativa de vida do brasileiro era de 44 anos, hoje chega a 76 anos; Se no começo da década de 1990, somente de 3 a 4% dos brasileiros passavam por uma faculdade, nos últimos anos houve uma proliferação de cursos superiores e um aumento no acesso à formação profissional; Os produtos duravam muito mais tempo e hoje a atualização é rápida, a ponto de um celular se renovar a cada 24 meses.

“Isto mudou a dinâmica dos negócios, trouxe novos consumidores, gerou pessoas preparadas para múltiplas carreiras e um novo perfil no mundo do trabalho, e consumidores mais exigentes”.

Tecnologia faz renda per capita evoluir

No ano zero a renda per capita mundial era de 467 dólares por ano, em valores de hoje. Em 1850, este valor elevou 30% e chegou a 600 dólares – graças à avanços como a eletrificação, da vaporização, da urbanização e o começo da industrialização, que trouxe um boom tecnológico. Em 150 anos este crescimento foi de 300%, chegando a 2 mil dólares. De 1996 a 2000 a renda per capita mundial saiu dos 2 mil dólares para 10 mil dólares na era pós internet, com 500% de evolução.

“Isto só foi possível graças ao impacto da evolução tecnológica, econômica e social”.

Jogo de bilhões

Antes um negócio levava 30 anos para chegar a US$ 1 bilhão, hoje vemos o encurtamento desta expectativa, com o advento das startups os negócios milionários aparecem muito mais frequentes. Em 2009, a Apple chegou a esta marca em 36 meses. Em 2014, já eram 4 empresas. Entre 2016 e 2017 o número de empresas bilionárias chegou a 185, e de lá para cá este número já dobrou.

“Este resultado foi puxado pelo avanço da tecnologia, que abriu oportunidades para o surgimento e o crescimento de empresas inovadoras”.

Apple e Amazon encostam no PIB brasileiro

Em 2007 quando surgiu o smartphone a Apple valia US$ 74 bilhões, de lá para cá a marca ultrapassou US$ 1 trilhão. Viabilizou a mobilidade das empresas que vinham a reboque, como a Amazon, que até então vendia livros e saiu de US$ 17 bilhões para cruzar há 4 anos também a marca de US$ 1 trilhão. Na semana passada, as duas empresas – ligadas à tecnologia e ao varejo – sozinhas já chegaram a um resultado pouco menor do que o PIB brasileiro – estimado em cerca de US$ 2,5 trilhões.

“Duas empresas norte-americanas estabeleceram uma nova curva e juntas se igualam a praticamente o  PIB brasileiro”. 

Necessidade de adaptação

A velocidade da tecnologia exige do empresário brasileiro uma capacidade de adaptação, como a de um camaleão se ajusta ao ambiente, porque o seu negócio sofre impacto com as mudanças que ocorrem de maneira drástica no mundo. Mas o foco, segundo Arthur Igreja, não deve ser na tecnologia ou em máquinas, mas sim nas pessoas e nas suas atitudes de comportamento.

“O varejo sente muito este efeito porque o consumidor mudou enquanto as empresas continuam oferecendo o mesmo atendendo de 20 anos atrás”.

Smartphone mudou comportamentos

O brasileiro passa 55% do seu dia no celular, no tablet ou no computador. Isto exige também que as empresas mudem sua forma de se comunicarem com o consumidor. A maioria das empresas tem uma página na internet, que quase não atualizam, e acham que isto é se comunicar com seu público.

“A mudança comportamental é a mais profunda de todas e isto veio com a mobilidade que o smartphone proporcionou. Não é a tecnologia, mas sim o que ela implica no comportamento das pessoas”.

Planejamento baseado no Excel

A inovação disruptiva não é como um meteoro que veio para acabar com tudo, mas ela muda completamente a relação das empresas com o consumidor e qualquer negócio que não se adaptar rapidamente a esta nova realidade está fadado a desaparecer. Muitas empresas brasileiras ainda seguem um modelo de gestão baseado em tabelas do Excel, quando não anotações em pilhas de papel. Quando se fala em inovação ou transformação digital se tem em mente que o assunto é somente tecnologia, mas 90% se refere a pessoas porque a tecnologia é somente um meio e se ela não atende ao propósito de servir as pessoas de nada serve.

“A tecnologia surge para ajudar as pessoas a resolver a maior escassez do mundo atual, a falta de tempo”.

Inteligência artificial não substituirá valores humanos

Há uma grande confusão quando se avalia o impacto da Inteligência Artificial na sociedade. A Inteligência Artificial cada vez mais será aplicada no sentido de estabelecer relacionamentos, se a característica da automação até aqui sempre foi baseada em braços e pernas mecânicas, ela passa a ser focada no cérebro, liberando a empresa naqueles processos em que necessitava de um batalhão de pessoas para contar com snipers, uma tropa de elite que faça trabalhos customizados, que liberem energias para que a empresa tenha resultados. Os grandes negócios respeitam uma lógica econômica que jamais será violada, atender a necessidade do consumidor. Com isto as pessoas podem utilizar o tempo disponível de maneira mais positiva, enquanto a tecnologia cumpre tarefas desgastantes, que consomem energia das pessoas.

“A tecnologia não substitui o olho no olho, as conversas presenciais que são indispensáveis ao negócio porque são baseadas em experiências de vida. Ocorre que este atendimento presencial não pode ser pior do que aquele do site desatualizado, com isto os negócios tecnológicos que se flexibilizam pautados na mudança de comportamento da sociedade tendem a ser bem-sucedidos”.

Brasil é campo fértil a inovações

O campo mais fértil para a inovação é aquele onde prevalece a burocracia e onde se dispende muita energia para se cumprir uma tarefa, o que faz do Brasil um cenário apropriado. Mas para o especialista, não basta ter uma boa ideia ou ir a eventos para escutar as novidades sobre o assunto. A inovação começa quando se pratica e isto traz novas experiências aos seus usuários.

“Não dá para esperar que a situação econômica do Brasil melhore ou para ver quem ganhará as eleições, porque as mudanças vão ocorrer independente de qualquer resultado.

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