Brasil pode decidir futuro de emergentes, diz Morgan Stanley

"A mistura de austeridade e obstáculos externos pode significar um golpe para os mercados e economias emergentes", diz o relatório, cuja parte sobre Brasil é assinada pelos economistas Manoj Pradhan e Patryk Drozdzik.

“A mistura de austeridade e obstáculos externos pode significar um golpe para os mercados e economias emergentes”, diz o relatório, cuja parte sobre Brasil é assinada pelos economistas Manoj Pradhan e Patryk Drozdzik.

De acordo com o banco americano Morgan Stanley, se o país conseguir atravessar a maior parte do ajuste fiscal prometido pelo governo antes que as pressões externas aumentem de maneira significativa, os emergentes devem se tornar muito mais resilientes.

Isso acontece porque o Brasil é visto como um dos dois grandes emergentes (o outro é a China) onde um ajuste nas políticas domésticas poderia ter forte impacto na economia, tornando-o uma fonte de contágio para outros mercados em desenvolvimento.

Na outra ponta, juntamente com Rússia, África do Sul e, em menor extensão a Turquia, o Brasil é visto como um dos que têm “maiores desafios estruturais” e são “mais externamente expostos“, o que implica uma grande tendência de “importar” crises.

“O pior caso não seria o Brasil não avançar com seu ajuste macroeconômico, mas se fizer isso ao mesmo tempo em que muitos ventos contrários externos se manifestem. A alta nos preços dos ativos em função do ajuste fiscal anunciado sugere que os investidores parecem ter esquecido as lições da austeridade na Europa. A mistura de austeridade e obstáculos externos pode significar um golpe para os mercados e economias emergentes“, diz o relatório, cuja parte sobre Brasil é assinada pelos economistas Manoj Pradhan e Patryk Drozdzik.

Estados Unidos

Segundo eles, além dos desafios estruturais, os emergentes enfrentam outras dificuldades, como a normalização da política monetária nos EUA, a desaceleração da China e um crescimento menor do crédito nesses mercados, após anos de expansão excessiva.

Como a China tem uma boa capacidade de “autoseguro”, a Índia se estabilizou e os investidores já vinham evitando a Rússia há algum tempo, o Brasil é a principal fonte de risco entre os grandes emergentes, segundo a equipe do Morgan Stanley. Os pesados investimentos estrangeiros no país colaboram para essa percepção.

Os autores do relatório citam um estudo da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) que sugere que a possibilidade de uma crise bancária ou uma interrupção repentina nos fluxos de capital aumenta quatro vezes após um episódio de forte entrada de recursos no país.

Se esse dinheiro é direcionado para títulos de dívida, a probabilidade é ainda maior.

“Os retornos reais excepcionalmente elevados e o redirecionamento de fluxos que iriam para a Rússia ajudaram a aumentar a entrada de recursos para os instrumentos de dívida brasileiros”, explica o texto.

“Esses influxos só são sustentáveis se o retorno real de 6% que o Brasil oferece puder gerar oportunidades de investimento com retorno de mais de 6%. Nós não vemos evidências contundentes de tais retornos na economia doméstica, o que significa que bancar as necessidades de financiamento do Brasil é uma transação bastante cara”, argumentam os economistas. O documento aponta que a elevada participação de estrangeiros na dívida pública interna é o calcanhar de Aquiles dos emergentes.

No Brasil essa participação ainda é pequena, mas tem crescido bastante nos últimos anos, o que é “preocupante”. Isso porque se as taxas de juros reais subirem nos EUA, “os mercados de renda fixa emergentes se tornam ilíquidos muito rapidamente”.

Citando o famoso mágico húngaro Harry Houdini, os analistas do Morgan Stanley dizem que se os emergentes conseguirem passar com poucos ferimentos pela normalização da política monetária dos EUA e a desaceleração da China, eles deixariam Houdini orgulhoso.

“A queda nos preços do petróleo está ajudando, mas nós acreditamos que a possibilidade dos emergentes consolidarem ‘a grande escapada’ depende do Brasil conseguir atravessar seu ajuste macroeconômico ileso”.

Por Álvaro Campos, Via Estadão Conteúdos

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